
Alguns filmes desafiam o espectador intelectualmente, exigindo atenção absoluta para que a história faça sentido. Um exemplo clássico é Memento, conhecido no Brasil como Amnésia. Seu roteiro funciona quase como um jogo com o público: ou você acompanha cada detalhe da narrativa fragmentada, ou corre o risco de sair da sessão dizendo que o filme “não faz sentido”. Na verdade, o filme testa nossa própria atenção e memória.
Mas aqui o assunto é outro. O foco é Whip It — curiosamente traduzido no Brasil como Garota Fantástica. Um filme muito diferente em proposta, mas igualmente interessante à sua maneira.
Dirigido por Drew Barrymore, que também participa do elenco, o longa revela uma direção surpreendentemente sensível e cheia de energia. A história, adaptada por Shauna Cross a partir de seu próprio livro Derby Girl, transforma uma narrativa aparentemente simples em algo genuinamente cativante.
Mais do que um filme sobre adolescentes e competições de roller derby, Whip It é, na verdade, uma história sobre identidade, liberdade e coragem para fazer escolhas próprias.
A protagonista vive cercada por expectativas impostas por outras pessoas — especialmente pela família. Como acontece com muitos jovens, ela precisa lidar com frases que tentam definir quem ela deveria ser:
“Você não nasceu para isso.”
“Eu só quero o melhor para você.”
Frases que, muitas vezes, nascem do amor, mas que acabam se tornando limites invisíveis para quem ainda está tentando descobrir quem realmente é.
O filme aborda temas extremamente humanos:
o gosto amargo de uma decepção amorosa,
as discussões desnecessárias com pessoas que amamos,
as rivalidades bobas entre amigos e adversários,
e, acima de tudo, o desejo de viver de acordo com aquilo que pulsa dentro do coração.
Há também algo muito bonito na forma como a história mostra os vínculos familiares. A mãe superprotetora, incapaz de aceitar mentiras, exagera em sua tentativa de controle. Já o pai representa outro tipo de sabedoria: a percepção de que a vida passa rápido demais para impedir um filho de ser feliz fazendo aquilo que ama.
Mesmo sendo um filme sobre juventude, seu espírito fala com qualquer idade. Ele nos lembra que a coragem de ser quem somos não deveria ser abandonada com o tempo.
E há momentos deliciosamente espontâneos, como a guerra de comida que surge no meio da narrativa, trazendo leveza e humor à história. São cenas simples, mas carregadas de uma energia que faz o espectador se sentir próximo daqueles personagens.
Whip It tem esse efeito raro: ele conquista sem precisar de grandes pretensões. É um daqueles filmes que, de maneira inesperada, conseguem tocar algo dentro de nós. Às vezes não sabemos exatamente por quê — apenas sentimos.
E quando isso acontece, certas cenas permanecem na memória. Pequenos momentos que nos fazem querer rever o filme novamente, apenas para reviver aquela sensação.
Com sensibilidade, humor e autenticidade, Drew Barrymore conseguiu criar uma história divertida, calorosa e cheia de humanidade. Um filme que fala sobre escolhas, sobre liberdade e sobre as pequenas coisas da vida que, à primeira vista, podem parecer insignificantes — mas que, quando vividas intensamente, se tornam algumas das melhores experiências que podemos ter.
No fundo, a mensagem é simples:
faça aquilo que realmente ama, não aquilo que esperam de você, não aquilo que dizem ser o caminho “certo”.
Apenas viva — com coragem suficiente para seguir o que o seu coração pede.
MINHA NOTA: 10.
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Trailer do filme: