24 de nov. de 2025

SOB O EFEITO DA ÁGUA


“Eu nado, trabalho e durmo.”
É assim que Tracy define a própria vida em Little Fish (Sob o Efeito da Água).
A frase parece simples, quase banal. Mas, na verdade, revela muito mais: uma rotina construída como uma espécie de abrigo contra o passado. Tracy nada para manter a mente em silêncio, trabalha para manter os pés no chão e dorme para que o dia termine sem que as lembranças a alcancem.
À primeira vista, o filme poderia ser facilmente descrito como triste, melancólico ou até deprimente. No entanto, sua força está justamente em mostrar algo mais profundo: pessoas que precisam aprender a viver com as consequências de suas escolhas. Pessoas que erraram, que se perderam em algum momento da vida, mas que ainda tentam encontrar um caminho para não se perderem completamente.
No centro da história está uma mulher que luta silenciosamente para reconstruir a própria existência. Tracy quer vencer. Quer deixar para trás um passado marcado por drogas, decepções e erros que parecem persegui-la no cotidiano. O que torna a narrativa tão poderosa é justamente essa tentativa de recomeço — imperfeita, dolorosa, mas profundamente humana.
O filme também nos lembra de algo comum na vida de muitas pessoas: sonhos grandiosos que existiam aos vinte anos e que, ao longo do tempo, foram destruídos por decisões erradas, vícios e circunstâncias difíceis. Agora, resta apenas o esforço de seguir adiante, carregando cicatrizes invisíveis.
E é justamente nesse ponto que a atuação de Cate Blanchett se torna extraordinária. Tracy parece deslocada dentro da própria vida, como se o abandono das drogas não tivesse sido suficiente para libertá-la completamente de quem ela foi. Há nela uma dor contida, silenciosa, que raramente se manifesta em palavras — mas que está sempre presente no olhar. É um sofrimento discreto, quase invisível, mas impossível de não perceber.
Outro destaque impressionante é Hugo Weaving, conhecido por muitos como o agente Smith de Matrix. Aqui ele interpreta Lionel, um ex-grande jogador de rúgbi cuja vida foi consumida pela heroína. Sua atuação é intensa e crua, revelando um homem quebrado que ainda carrega fragmentos do que um dia foi.
Mas talvez a maior força de Sob o Efeito da Água esteja na forma como ele confronta o espectador. O filme nos obriga a refletir sobre a maneira como enxergamos o mundo e julgamos as pessoas. Muitas vezes analisamos a vida dos outros através de nossos próprios preconceitos, sem realmente conhecer as batalhas silenciosas que cada um enfrenta.
E então percebemos algo desconfortável, mas profundamente verdadeiro:
temos muito mais em comum com os outros do que gostaríamos de admitir.
Todos carregamos arrependimentos.
Todos temos escolhas que gostaríamos de refazer.
Todos tentamos, de alguma forma, continuar.
No fundo, Sob o Efeito da Água não é apenas uma história sobre vício ou redenção. É um retrato sensível sobre fragilidade humana — e sobre a difícil arte de continuar vivendo mesmo quando o passado insiste em não desaparecer.

NOTA: 10.


JUST ONE PHOTO:



Tudo o que podemos fazer para recomeçar, é aceitar as coisas como elas são, mudar a cada dia o que incomoda e dar um passo de cada vez.




Cena do filme com música "Flame Trees".